terça-feira, 24 de maio de 2011

normal

chegou não muito a vontade, era a primeira vez que visitava a casa dele, não conhecia todas aquelas pessoas e fazia frio. pediram-lhe para arranhar no francês e dar boas vindas à namorada de um amigo que acabara de chegar do caribe. achou logo uma cadeira próxima à mesa e sentou ao lado da amiga, a que havia feito o convite. e desmoronou. virava a cerveja na tentativa de enganar a ressaca, pra manter o ritmo da embriaguez, mas no fundo sabia que bebia para desentalar a garganta, engolir o choro, afogar todas aquelas idéias que rodeavam a cabeça. nunca se sabe o que fazer quando não há mais nada a se fazer. trocou uma ou duas palavras com a gringa, sempre gostou de saber de onde as pessoas vinham, talvez porque ainda não havia achado um modo simplista de contar de onde viera, depois de tantos anos pulando pelas cidades.
arriscou uma foto ou outra, mas não sorria. comeu, pra não fazer desfeita, mas nada descia e aí era por causa da ressaca mesmo, ainda que estivesse em plena felicidade o estômago estava revirado junto com as lembranças vagas da noite anterior.
_ e ontem?
_ normal.
_ defina o que é normal pra vocês, que eu não sei.
_ ela foi me dar os parabéns e me contar que esteve com outras pessoas.
_ mas ela manda mal, hein?
_ pois é, normal, eu disse.
_ cara, sai dessa história. você tem que ir embora.
_ eu tenho que mudar de vida, mudar de emprego, o corte do cabelo.
_ não, o cabelo tá bacana. mas você disse alguma coisa, vocês conversaram?
_ eu não digo mais nada, chega. disse só que ela tá mandando mal. ela não percebe que está, alguém tem que contar.
_ e ela?
_ não tinha notado mesmo rs. mas isso não é o que afeta mais. o que tá foda é gostar de alguém que eu não tenho admirado nenhum um pouco. tá amargo.
_ então aproveita que o encanto acabou e acorda pra vida.
_ me empresta seu coração de áries que eu resolvo isso em dez minutos.
_ esquece isso, cara. essa amizade toda aí não existe, isso não tá te fazendo bem.
_ você me conhece. você sabe que eu não sou assim, comigo não é assim.
_ ela vinha pra cá hoje, você sabia?
_ tô ligada. mas não vem.
_ não?
_ não apareceu até agora, não vem mais. melhor assim.
_ não tem que ser melhor, nem pior. tem que ser indiferente.

1 comentários.:

Janie disse...

e a indiferença se assemelha a um soco bem no meio da caixa toráxica...
é sufocante!